» » » » » DO OUTRO LADO DO CERCADO OU DO DIA EM QUE MONTEIRO RECEBEU AS ÁGUAS DO SÃO FRANCISCO


Meu desejo era que o helicóptero que conduzia o tornando legítimo por meio de um golpe parlamentar e jurídico caísse, mas isso que faria com que a cidade de Monteiro entrasse para a história do Brasil não foi possível. Entretanto, existem outras formas de entrar na história e creio que o lugar de Monteiro está garantido a partir de hoje quando a cidade recebeu as águas do São Francisco. Mas não nos iludamos. Acredito que as águas vieram não para socorrem a população do cariri, mas para que a cidade de Campina Grande não entrasse em colapso. Não sejamos ingênuos. A transposição do São Francisco, obra impactante em todos os sentidos (ambiental, econômico, social e, sobretudo histórico), deveria ser recebida com grande comemoração para nós que vivemos em uma região que vive assolada por seca. E a comemoração houve em parte pela população que acredita que a escassez de água será amenizada com tal obra e também por autoridades locais, estaduais e nacionais que, a despeito da participação na concretização da obra, se fizeram presentes e marcaram a presença com discursos ou flashes. Nessas horas pais para a obra não faltam, e muitas são as caras que querem pegar carona na transposição e que têm desenhado um tempo em que não basta apenas comemorar. O período atual é de perigo e de incertezas no futuro em virtude de uma série de ações que têm sido pensadas e postas em execução por esses que, eleitos pelo povo, têm governado apenas para si e para a súcia de que fazem parte. Por isso, as águas que hoje chegaram ao município fomentaram não apenas a alegria, mas, sobretudo, a revolta de uma parte da população que não aceita o retrocesso que se instaurou no país há menos de um ano. Por isso, mais do que se banhar nas águas do São Francisco depois de se fazer presente por mais de duas horas sob um sol escaldante, uma parte da população, em parte composta por alunos secundaristas e universitários, queria gritar, vaiar e proferir palavras contra a ordem fascista, misógina do excelentíssimo senhor tornando presidente. Mesmo de fora do local onde estava acontecendo a solenidade, porque “governo golpista tem medo do povo”, essa população mostrou que ainda há resistência e consciência política, que, se os golpistas tomaram o poder, podem até permanecer nele, mas terão de ouvir os gritos, as vaias daqueles que não aceitam o cinismo, a desfaçatez desses que têm conduzido o país ao atraso. Foi bonito ver ás aguas chegarem e as pessoas gritarem contra os aproveitadores de plantão. É um dia que entra para história. E eu estava lá, fora do palco, do outro lado da linha, mas em meio à marcha da história que se faz com luta e participação popular!

Escrito por Amiel Nassar Rivera


 

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